quinta-feira, 29 de março de 2012

Do fundo do coração, ou Love, Love, Love

Sempre acreditei que toda vez que a gente entra numa igreja pela primeira vez, vê uma estrela cadente ou amarra no pulso uma fitinha de Nosso Se­nhor do Bonfim, pode fazer um pedido. Ou três. Sempre faço. Quando são três, em geral, esqueço dois. Um nunca esqueci. Um sempre pedi: amor.
Nunca tinha tido um amor. O quê? Aos 35 anos, agitando desse jeito? Ex­plico: claro que tive dúzias e dúzias, outro dia tentei contar e me perdi na altura do número cento e trinta e muitos. Mas tudo rapidinho, assim. uma hora, um dia, uma semana, um mês. Nunca, digamos. UM ANO. Então quando alguém suspirava e dizia cara estou saindo de um caso de DEZ anos, meu olho arregalava de pura inveja. Histórias mais compridinhas, claro que rolaram. Maria Clara, por exemplo, mas a gente morava, eu em Sampa, ela no Rio, amor-ponte-aérea. Caríssimo. Isso, das moças. Dos moços, aquele bailarino americano em London, London. Numa tarde de compras e roubos em Porto-bello Road me deu de presente um cacto (perfeito!) e me deixou planta­do até hoje. Esse era amor-de-metrô, último trem entre Hammersmith e Euston. Onde andará? ("Onde andará?" é das perguntes mais tristes que conheço, sinónimo de se perdeu.)
Eis que de tanto pedir, insistir, acender vela, fazer todos os feitiços para Santo Antônio e Oxum e concentrar, rezar, mentalizar, eis que pintou. Ano passado me baixou um encosto de São Francisco de Assis, joguei (literalmente) pela janela quase tudo que tinha e, com duas malas, parti para o Rio. Não queria mais me prender a nada. Nem a Sampa, bem-amada. Numa ida a Porto Alegre, em agosto, deu-se. Explosão: à primei­ra vista. Tudo o que dissemos, depois de um suspiro de alívio, foi: eu amo você. Pasmem: verdade das verdadeiras. Ousadias do coração que saca, na hora, a intensidade do lance. E não disfarça. Bueno, tinha pintado. Então tá. Romance comme ilfaut: dias numa casinha no meio de bosques em Gramado. Depois a volta ao Rio e, como dizia Ana Cristina César, "amizade nova com o carteiro do Brasil". Laudas e laudas de cartas de amor, uma por dia, duas por dia, dez por dia. Fotos, poemas, juras interurbanas. Voltei. Nós fomos os dois pro Rio. Dois meses lá: o amor resistia, mas nenhum estava a fim de pegar no pesado. Então fazer o quê? Dividir quarto de pensão na Lapa, andar de ônibus, comer espiga de milho e misto quente? Nenhum acreditava em teu-amor-e-uma-cabana, também não era preciso teu-amor-e-um-rolls-royce (seria ótimo), mas pelo me­nos uma vitrolinha para fazer amor ao som do Bolero, de Ravel (amor tem desses lugares-comuns quase inconfessáveis). Voltamos. Verão em Torres. Camas de trinta horas. Passeios. Dunas, praia da Guarita. Filme. A sunga verde de lycra.
De repente uma luzinha vermelha começou, cigarro no escuro, a piscar dentro de mim. Foi no carnaval que passou. Suspeitas: porra, eu me afastei de tudo, de todos, joguei tudo pro alto e só quero esse amor, nada mais me interessa, se esse amor me faltar (pode?) eu só tenho isso, é o único laço que me prende à vida — e se falta, Deus, se faltar o que faço? Noites paranóicas, medo Ritchie. E... se dançar? Aí dançou. Foi dançando. Não sei bem como. Uma tarde peguei nas suas mãos e, bem cruel (punhais: como a gente sabe apunhalar com engenho e arte, crava devagarinho a lâmina, depois revira, dentro da ferida), pedi assim: me olha bem dentro dos meus olhos e me responde à seguinte pergunta: "Você não me ama mais?" Silêncio tão espesso que consegui ouvir o ruído do movimento de rotação da Terra. Feito na novela das seis, eu abri a boca quando ouvi a resposta. Um lento Não. Um claro Não. Um seguro Não. Um límpido Não. Um tranquilo Não. Um sem dúvida alguma Não. Um sem-volta Não. Um para-sempre Não. Um negativo Não. Um afirmativo Não. Repete, pedi. Repetiu. Pede-se não enviar flores, pensei. Fechei a porta. Fiquei só, chovia. Com requintes de autopiedade, limpei devagarinho com feltro um disco da Elis, deitei no chão e ouvi umas cem vezes "Se eu quiser falar com Deus". Quando já ia abrir o gás, corri para o telefone e pedi ao Zé Márcio Penido em Sampa: socorro. Vem, ele disse. Santo amigo. Fui, na mesma hora. Me estonteei, vi todos os filmes, todas as peças, revi todos os amigos, ouvi todos os discos, namorei o que deu. Tinham sido MESES de fi­delidade absoluta, nada imposto, o que é pior: supernatural... Fidelida­de, no amor-amor, é sempre supernatural. Quando decidi estou-ótimo-tullgás-total-posso-voltar, voltei. The reencontro: quando dei por mim estava dizendo as coisas mais duras e agressivas e cruéis e impiedosas e injustas e ferinas e baixas e grossas que uma pessoa pode dizer à outra. Comecei a me perder pela cidade. Selecionei vinte gatos & gatas mais lindos do pedaço, dez semifinalistas, cinco finalistas, transei todos. Saí sem parar. De bar em bar, telefone tocando sem parar. Explodindo de vitalidade e saúde e sedução: capacidade de superação. Puxa, gente, como sou maravilhoso, como sou maduro e equilibrado, como sei dar a volta por cima, como não sou careta, como sou moderno e liberadésimo. Aí, desabou. Dez dias. De manhã bem cedo, chegando da vida, percebi uma pequena rachadura na parede externa do edifício. Avança­va lentissimamente. Ao meio-día rachou de alto a baixo. O edifício veio ao chão: me interna, pedi pra mãe, estou infeliz pra caralho. Peguei o pacote de cartas que tinha pedido de volta (fiz absolutamente todos os números, o problema é que a plateia estava vazia: ninguém aplaudiu minha melhor sequência de sapateado), coloquei aos pés de Ogum. E agora, Caio F.? Agora, estou amanhecendo. Ah, me digo, então era assim. Essa coisa, o amor. Já conheço? Já conheço. Mas como é mesmo que se chama? Também não estou certo se estarei mesmo amanhecen­do. Talvez, sim, anoitecendo, essas luzes penumbrosas são muito pare­cidas. Não sei muita coisa. Quase nada. Pedi? Levei. Nunca tinha sido tão intenso, nem tão bonito. Nunca tinha tido um jeito assim, tão forever. Não me diga que vai passar, vai passar, vai passar, vai passar. Não me diga que foi ótimo, o que você queria, a eternidade? Não me peça para não te encher o saco lamuriando. Posso não saber nada do coração das gentes, mas tenho a impressão de que, de tudo, o pior é quando entra a segunda parte da letra de "Atrás da porta", ali no quando "dei pra maldizer o nosso lar pra sujar teu nome, te humilhar". Chico Buarque é ótimo pra essas coisas. Billie Holiday é ótima pra essas coisas. E Drummond quando ensina que "o amor, caro colega, esse não con­sola nunca de mancaras". Aí você saca que toda música, toda letra, todo poema, todo filme, toda peça, todo papo, todo romance, tudo e todos o tempo todo, antes, agora e depois, falam disso. Que o que você sente é único & indivisível e é exatamente igual à dor coletiva, da Rocinha a Bíarritz. O coro de anjos de Antunes Filho levanta no ar, em triunfo, os corpos mortos de Romeu e Julieta enquanto os Beatles pedem um little help from rnyfriends, e a plateia ainda aplaude e pede bis (o Gonzaguinha também é ótimo pra essa coisas). Meus amigos, abandonados para que eu pudesse mergulhar, voltaram a mil. Tem seus prazeres o fim do amor. Se é patologia, invenção cristã-judaico-ocidental-capitalísta, ou maya, ego, se é babaquice, piração, se mudou-através-dos-tempos, puro sexo, carência, medo da morte: não interessa. Tenho certeza que estive lá, naquele terreno. Ele existe. Por isso falo dele: Joyce e Paula me pediram elucubrações, as minhas são estas. Estou contando a vocês que estou fazendo elucubrações so­bre o amor porque provavelmente, de uma outra forma vocês aí que me lêem, talvez com tédio, também estão pensando a mesma coisa. O bicho homem não faz outra coisa a não ser pensar no amor. Até as relações de produção, a luta de classes, a ecologia, o jogo pelo poder: tudo, questão de amor. Formas de amor. Amor é a palavra que inven­tamos para dar nome ao Sol abstraio em torno do qual giram nossos pequeninos egos ofuscados, entontecidos, ritmados. A vida toda. Mas se me perguntarem o que quero dizer com isso, não tenho resposta. O que quero dizer é justamente o que estou dizendo. Não estou com pena de mim. Tá tudo bem. Tenho tomado banho, cortado as unhas, escovado os dentes, bebido leite. Meu coração continua batendo — taquicárdico, como sempre. Dá licença, Bob Dylan: It's all right man, I’m just bleeding. Tá limpo. Sem ironia. Sem engano. Amanhã, depois, acontece de novo, não fecho nada, não fechamos nada, continuamos vivos e atrás da felicidade, a próxima vez vai ser ainda quem sabe mais celestial que desta, mais infernal também, pode ser, deixa pintar. Se tiver aprendido lições (amor é pedagógico?), até aproveito e não faço tanta besteira. Mas acho que amor não é cursinho pré-vestibular. Nin­guém encontra seu nome no listão dos aprovados. A gente só fica assim. Parado olhando a medida do Bonfim no pulso esquerdo, lado do cora­ção e pensando, pois é, vejam só, não me valeu.

Caio F.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Por que as canções de amor estragam seu relacionamento


Pense rápido: quantas músicas você conhece que tenham, na letra, “preciso de você” (serve “I need you” também), “I can’t live without you” e afins? Confesso que não sou a pessoa mais romântica do mundo, aliás, não sou nem um pouco romântica. Meu gosto musical oscila entre Metallica e Tchaikovsky – parece pegadinha, eu sei, e tanto parece que já escrevi sobre isso para o Oi tudo em cima? no Dia Mundial do Rock – então, não vou enganar ninguém e já digo, de início, que “love songs” não estão mesmo entre as minhas favoritas.
Independente do gosto musical, vamos aos fatos. As letras de músicas de amor são assustadoras. Algumas falam que um está viciado no outro, que um não vive sem o parceiro, que não respira sem o dito cujo e que, sem ele, não quer mais viver (de Ke$ha a César Menotti e Fabiano é assim). Agora vamos pensar que as pessoas cantem isso repetidamente porque toca na rádio, porque gostam da música ou, simplesmente, porque ela grudou na cabeça. Não é preciso ser nenhuma universidade de Cambridge ou Harvard para imaginar que não é saudável ouvir e repetir (cantarolando) isso com frequência.
O motivo é óbvio. Esse tanto de eu-lírico que precisa dos outros e morre, esperneia, chora e dramatiza por qualquer coisa mostra o pior modelo de relacionamento, o que envolve dependência amorosa. E as pessoas ouvem, absorvem e, aos poucos, assimilam, acham normal, até chegar ao ponto de achar bonito e incorporar.
Sinceramente, não sei por que os compositores gostam tanto de expressar justamente esse lado das coisas. O eu-lírico dessas músicas é dependente, não sabe lidar com seu poder pessoal, não tem lá muito amor-próprio e deve detestar a própria companhia, caso contrário, não precisaria do outro. Em vez disso, gostaria de ficar junto, de compartilhar mil coisas, de trocar, viver experiências, conhecer lugares, aprender junto… mas “precisar”? Verbo infeliz e muito diferente de “querer”, “gostar” ou “amar”. As pessoas precisam é de se manter centradas e aprender a respeitar a si e o outro.
Vamos agravar o quadro. Imagine que muitas pessoas associem músicas a pessoas e, também, que existem aqueles casais que querem ter a “nossa música”. Imagino a dor da separação de um casal que elegeu uma dessas “preciso desse amor” como trilha sonora. Ou que, ainda que não tenha música nenhuma, aceitou esse padrão difundido pelas músicas como real, como se fosse muito normal as pessoas dependerem uma das outras nesse nível. É muito sofrimento dar conta disso tudo! As pessoas não dão conta nem delas mesmas, como dar conta dela, do outro e de uma relação de dependência desse nível?
Mas, apaixonados, existem canções de amor legais. O meu amor, do Chico Buarque é uma delas. Ok, para não ficar na elite da MPB, vamos dar um giro de 180º. Alguém já ouviu Save me from myself, da Christina Aguilera? Ou, novo giro de 180º, Nothing Else Matters, do Metallica?
Opções existem e recomendo, como boa fã de rock, que as pessoas optem por parar de ouvir esse povo que faz leilão com o coração e ouçam letras mais saudáveis. Mas, falando sério, o que recomendo de verdade é que cada um ouça o que quiser, no estilo que preferir, mas que saiba rir das letras de dependência amorosa e saiba, também, que elas não foram feitas para ser levadas a sério. Cante, se expresse, faça drama, desabafe, mas ria depois, por favor. Não gaste mais do que 30 minutos nessa brincadeira. Faz mal.
Para não parecer que eu sou de pedra e não ouço nada nhenhenhém informo que minha canção melosa favorita é Space Dye Vest, do Dream Theater. Ela é exagerada, dramática e ridícula tanto quanto várias outras (atenção para o fato de que eu tenho consciência do quão ridícula ela é), mas ela tem um trecho que diz muito do que deveria ter em outras letras: respeito ao outro enquanto indivíduo.
“He wants you for possession something to look at like a painting or an ivory box. He only wants you to own and to display. He doesn’t  want you to be real, to think or to live. He doesn’t love you, but I love you and I want you to have your thoughts, ideas and feelings even when I hold you in the arms”.
(em tradução livre: “Ele te quer como posse, algo para admirar como uma pintura ou uma caixa de marfim. Ele só te quer para possuir e ostentar. Ele não quer que você seja uma pessoa real, pense ou viva. Ele não te ama, mas eu te amo e quero que você tenha seus próprios pensamentos, ideias e sentimentos mesmo quando estiver em meus braços”)

 http://www.maistato.com.br/2010/08/31/musica-cancoes-amor-estragam-relacionamento/

sábado, 17 de março de 2012